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segunda-feira, 21 de março de 2011

Sentimento de impotência, artigo de Montserrat Martins


Publicado em março 21, 2011 por HC
Tags: reflexão
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[EcoDebate] É uma reação natural evitar assuntos mais dolorosos, quando não há nada que possamos fazer para mudar os fatos – é o chamado “sentimento de impotência”, do qual derivam comportamentos e mecanismos de defesa psicológicos que vão da apatia à negação da realidade, acompanhados por tristeza, angústia e até depressão. Isso ocorre tanto em situações de nossas vidas pessoais quanto em fatos sociais chocantes, como os que sucederam neste mês de março. Destruição no Japão, com acidente nuclear inclusive, genocídio na Líbia, um somatório de fatos chocantes provocaram tristeza e medo através do mundo.
O sentimento de impotência é uma parte importante de nossas vidas sociais, não aparece só nas grandes tragédias, mas também sob forma de problemas crônicos, como por exemplo no noticiário cotidiano sobre a corrupção ou sobre a violência. Cada um de nós, como indivíduo, se sente muito pequeno e sem poder de fazer algo que faça a diferença em situações como essas, o que às vezes resulta em passividade coletiva, quando deixamos de acreditar que algo possa ser feito.
O mais sublime exemplo de tragédia canalizada para a transformação social foi a da mãe que perdeu o filho no trânsito e dedicou sua vida à prevenção de acidentes, estamos falando é claro da Diza Gonzaga e do movimento Vida Urgente. Nada poder ser comparado à dor de uma mãe diante da sua maior perda, a de um filho. Por enfrentar – e como uma missão para ajudar aos outros – o próprio sentimento de dor e impotência, Diza passou a ser uma referência para outros pais e mães com perdas irreparáveis, com o exemplo da solidariedade, da ação social para a conscientização e prevenção de mais e mais tragédias. Por maior que seja o sentimento de impotência – pois nada irá trazer seus filhos de volta – estas histórias de transcendência da vidas representam o mais elevado que seres humanos podem fazer com a própria tristeza, sofrimento, luto, com a própria depressão. É da capacidade de ver algum sentido na vida (pois se não sem descobrisse algum sentido, não haveria motivação para reagir) que brota essa resposta sublime, de canalizar a própria dor para o socorro aos outros.
Não sabemos como vai ficar o Japão, nem a extensão do genocídio na Líbia, questões pelas quais não temos como fazer tanto. Mas um pouco do Japão está aqui pertinho de nós, nos atingidos pelas enchentes em Santa Catarina ou ainda mais ao sul, em São Lourenço do Sul. Situações de violência como as da Líbia também, se não temos aqui um Kadafi temos vários “patrões” do tráfico ordenando mortes em regiões que aterrorizam. Assim como há, também, algumas pessoas que lutam de modo até mesmo heróico (como a Diza), para prevenir tragédias, ou ainda para impedir devastações naturais produzidas pelo próprio ser humano a desequilibrar o clima, ou em projetos de recuperação de jovens violentos.
São pessoas como estas que podem nos mostrar caminhos melhores para aprendermos a lidar com nossos sentimentos de impotência, diante das pequenas e das grandes tragédias da vida.
Montserrat Martins, colunista do Ecodebate, é Psiquiatra.
EcoDebate, 21/03/2011




www.ecodebate.com.br/2011/03/21/sentimento-de-impotencia-artigo-de-montserrat-martin

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